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ANJO DA NOITE
Vinte e três horas. Caminhava tranqüila pela avenida em direção ao ponto de ônibus.
No céu, uma lua prateada iluminava a calçada e projetava uma sombra a seus pés.
De vez em quando, corria os olhos
pela imensidão escura e deslumbrava-se com as estrelas pequenos furos de agulha
lá no alto por onde passavam esguios feixes de luz.
Dez minutos depois, estava na
parada. Sentou-se no banco de cimento frio. Fechou os olhos cansados por alguns instantes.
Trabalhara o dia inteirinho na casa de dona Gisele. Aniversário de criança era uma
barra, principalmente em se tratando de primogênito.
Tudo foi preparado nos mínimos
detalhes. Dona Gisele era muito exigente. Foram doze horas ininterruptas preparando
croquetes, canapés, pipocas, brigadeiros, pudins, bolos e balas de coco, atendendo
crianças agitadas, providenciando refrigerantes e limpando o chão a toda hora. Ainda bem
que o salário compensava.
Seu pensamento voou e foi pousar em
casa. Lembrou-se do primeiro aniversário de Tiago, seu filho. Uma gracinha! Não houve
festa, mas a família estava reunida.
Nunca imaginou que iria separar-se
de Paulo Roberto. E isso foi há dois anos! Ainda não se habituara à idéia da
separação.
Sua educação foi muito rígida.
Cresceu pobre, porém honesta. A religião sempre teve uma forte influência em sua vida,
por esse motivo, ainda sentia-se presa ao pai de seu filho.
Quando decidiu casar-se, acreditava
piamente na indissolubilidade do matrimônio. Enganara-se. Quatro anos foi tempo
suficiente para que seus sonhos se transformassem em pesadelo. Ainda assim, era difícil
esquecer Paulo Roberto.
Deixando de lado os momentos ruins
da relação, revivia em pensamento a felicidade que sentira quando Paulo Roberto pediu
sua mão em casamento.
O noivado durou apenas seis meses.
Só então pode viver com seu primeiro e único amor. Jurou que viveria com ele por toda a
vida.
"Por toda a vida!",
surpreendeu-se repetindo as palavras pensadas em voz alta. Graças a Deus, não havia
ninguém por perto, senão pensaria que ela estava louca, falando sozinha, já imaginou?
O nascimento de Tiago foi a maior
festa. Paulo Roberto estava radiante. Agora tinha um herdeiro. Reuniu os amigos, bebeu
cerveja, assou uma picanha na brasa, fumou charutos, dançou, comemorou até. Não se
imaginava dominado pelo ciúme alguns meses depois. Passaria a ver Tiago como um
concorrente, quase como um inimigo.
Estremeceu. Afastou a tristeza
respirando profundamente algumas vezes. Olhou o relógio. Já passara vinte minutos e nada
do coletivo chegar. Ficou preocupada. Teriam os motoristas entrado em greve? Como voltaria
para casa?
Uma corrente de ar frio
percorreu-lhe toda a extensão da coluna vertebral. Intuição? Mau presságio? Sexto
sentido? Bobagens de mulher?
Quando aquele carro escuro com
vidro fumê estacionou à sua frente, seus olhos se arregalaram. De dentro saiu um homem
enorme, de roupa escura, fazendo-lhe propostas indecorosas.
Procurando controlar o tremor nas
pernas, educadamente ela recusou o convite. Não podia demonstrar medo naquele momento, do
contrário, seria pior.
O homem insistiu e ela novamente
declinou o convite. Irritado, ele sacou uma arma, encostou-a em seu rosto e repetiu a
proposta. Ela argumentou ser casada, ter filho, estar exausta. Poderia dar-lhe dinheiro, o
relógio, a roupa. Ele disse que ela sabia muito bem o que ele estava querendo.
Não teve outro jeito. Entrou no
carro sob ameaças. Tremia, rezava baixinho para não irritá-lo ainda mais, lágrimas
brotavam de seus olhos. Temia morrer e deixar seu filho atirado no mundo. Sabia que sua
mãe, enquanto tivesse forças, cuidaria bem dele, mas, e depois?
Em alta velocidade, o carro
enveredou por uma estrada vicinal de terra batida. Devia estar a vários quilômetros da
cidade.
Não conseguia pensar em mais nada
além de Tiago. Não importava o que aconteceria dali a alguns intermináveis minutos.
Não podia morrer e deixá-lo vagando sozinho pelo mundo.
Olhando ao redor, percebeu que
estava em um barraco. Perdera a noção do tempo e do espaço. À sua direita, uma cama de
casal forrada com lençóis encardidos. À sua frente, um homem seminu, bastante excitado,
fazendo sinais para ela despir-se. Constrangida, obedeceu. Deitando-se, pediu a Deus o fim
daqueles intermináveis momentos. Queria voltar a salvo para seu filho, não importando o
que acontecesse com ela.
O homem deitou-se sobre ela,
provocando o enrijecimento de seus músculos ao sentir o frio do cano da arma na altura do
ouvido. Pediu forças à Deus. Se esse era o seu carma, não teria outra escolha. Fechou
os olhos esperando o pior, enquanto duas lágrimas solitárias umedeciam seus longos
cabelos castanhos.
Para sua surpresa, o estranho, ao
invés de penetrá-la freneticamente como fazia seu ex-marido, começou a beijar-lhe o
pescoço, os seios, a barriga, em um longo ritual, até atingir seus pés. Atônita, não
sabia o que fazer. Nunca fora tratada com tanto carinho pelo único homem de sua vida.
De repente, o desconhecido jogou a
arma para um dos cantos do quarto, excitou-se mais ainda, agarrou-a com força e virou-a
de costas. Passivamente, ela esperou pelo pior. E mais uma vez surpreendeu-se ao ser
beijada da cabeça aos pés.
Houve uma pequena pausa, seguida de
alguns soluços, lágrimas umedecendo suas costas e uma voz dizendo baixinho: "Ana
Maria, por quê? Que foi que eu lhe fiz?".
Virando-se lentamente, pode ver uma
profunda mágoa nos olhos daquele homem. Sua expressão tristonha atravessou sua alma como
uma espada. Concluiu que ele tivera uma grande decepção e precisava de apoio. Temerosa,
tinha vontade, mas não coragem, de conversar a respeito. Ele podia ser um psicopata.
Pensando melhor, reconheceu que ele
não a machucara, fora, inclusive, mais delicado que Paulo Roberto. Hesitou um pouco. Não
se conteve. Passou a mão direita pelos cabelos do estranho, o qual, assumindo a posição
fetal, recostou a cabeça em seu ventre e começou a chorar.
Minutos depois, os soluços
terminaram. Ela voltou a ser acariciada e beijada. Relaxada e segura, ela sentiu seu corpo
reagir positivamente a tudo aquilo que nunca tivera de seu ex-marido. Aos olhos do outro,
transfigurou-se em Ana Maria. Ele sorriu, excitou-se e mergulhou nela com frenesi.
Pela primeira vez, ela sentiu algo
completamente diverso dos tempos de casada. Jamais fora beijada e tocada com tanto
carinho. Por fim, entregou-se.
Quando o sol despontava no
horizonte, abriu os olhos. Uma sensação de paz a invadiu. Há tempos não despertava
tão calma, tão serena, tão feliz.
A respiração tranqüila
transportava seu pensamento de casada. Arrepiou-se ao conjeturar que fora estuprada
durante quatro anos pelo ex-marido e, ainda assim, imaginara ser feliz. Paulo Roberto era
um bruto!
Mexeu-se na cama e o homem abriu os
olhos. Ruborizado e sem coragem de encará-la, pediu-lhe desculpas pelo acontecido.
Estivera alucinado com a perda de Ana Maria para o seu melhor amigo. Viajara a negócios
e, ao retornar um dia antes, surpreendera os dois em sua própria casa, em sua cama.
Apostara tanto no relacionamento com Ana Maria que estava muito difícil superar o
rompimento. Consultara videntes, pais-de-santo até mesmo psicólogos, no entanto, as
alucinações continuaram.
Aquela noite, ao vê-la na parada,
enxergou Ana Maria e não se conteve. Levou-a para sua chácara. Somente agora, quando o
sol surgira, deu-se conta da besteira que tinha feito. Fora inconseqüente, mas estava
feliz porque as alucinações haviam passado. Desculpou-se inúmeras vezes e disse que a
levaria onde bem quisesse até mesmo à polícia, se assim fosse sua vontade.
Ela falou que precisava passar em
casa para ver seu filho e sua mãe que deviam estar muito preocupados. Tinha também que
se preparar para o trabalho na casa de dona Gisele.
Com a cumplicidade no olhar,
enterraram o revólver na mata. Nos dias que se seguiram, o barraco foi ganhando um toque
feminino.
A cada final de tarde, fechava o
portão da casa de dona Gisele atrás de si e dirigia-se a passos largos para o ponto de
ônibus.
Ansiosamente, não via a hora do
seu Anjo da Noite chegar.
PORÕES
Foi tudo muito rápido.
Prenderam-me em uma sexta-feira, às dezoito horas, no exato momento em que meu candidato
saía do Palácio e se dirigia à multidão para testar sua popularidade.
Cinco policiais militares
agarraram-me pelos braços, tomaram meu revólver calibre 38, levaram-me para a delegacia
e jogaram-me em uma cela escura. Fui interrogado exaustivamente até perder a noção das
horas e dos dias. Imediatamente, fui coagido a assinar uma confissão, cujo conteúdo não
me foi dado a conhecer. Julgaram-me e condenaram-me por ato subversivo. Em poucas horas,
eu já estava confortavelmente instalado na penitenciária, após ter sido apresentado à
imprensa.
Dez anos de prisão, dez anos da
minha vida entre quatro paredes, com direito a um passeio pelo pátio todas as manhãs e a
adorável companhia de Zé Doido, Tonhão Ferradura, Mangueirinha, Chupeta e Papa-anjo.
Nesse ínterim, o eleito procurava
realizar frustrados sonhos de infância: passeava de helicóptero, submarino, jet-ski,
jogava com a seleção natural de futebol, contra a vontade de sua mamãe e sob os olhares
apreensivos do povo que o elegeu.
"Babaca!" Foi assim que
me chamaram quando vibrei com a eleição democrática e a ascensão do meu candidato. E
foi assim que me senti quando, uma semana depois da posse, minhas economias para a compra
de uma casa modesta foram bloqueadas. O jeito foi alugar, porém a imobiliária ficava com
mais da metade do meu salário.
Ninguém acreditou em mim. Eu
queria simplesmente suicidar-me na frente dele em protesto pelo que ele fizera com a minha
vida. Perdi minhas economias suadas, era sugado pela imobiliária, quase fui colocado em
disponibilidade no serviço público. O que queriam que eu fizesse, pô? Havia outra
saída?
Ensaiei por várias horas minhas
últimas palavras: "Presidente, dei-lhe meu voto e a minha confiança. Acabei
recebendo em minha cabeça a última bala que Vossa Excelência disse que tinha para
disparar". E não veria mais nada, não sentiria mais nada e o pesadelo acabaria de
vez.
Hoje, tenho apenas quatro paredes,
uma janela para o mundo e uma imensa vontade de correr pelos campos, sentindo o cheiro do
mato e da terra molhada. Resta-me sonhar com um novo tempo enquanto minha vida não se
transforma em mais um pesadelo.
Meus cinco companheiros de cela me
apelidaram de Marajá. Alguns deles, mais especificamente o Tonhão Ferradura e o
Papa-anjo, me olham com desejo.
O Mangueirinha costuma fazer
comentários maliciosos: "Esses bacana têm mais é que pená, como nóis! São cheio
de fricote e não-me-toque. Mas eu tenho uma solução pra eles..." Acariciando o
baixo ventre, completa: "... no apagar das luzes, é claro! Ih, ih, ih!"

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